BREVIÁRIO MORAL PARA INICIAÇÃO À LEITURA
Ainda crente na máxima lobateana de que um país se faz mesmo com homens e livros -e muita capa dura,claro-, aproveitamos o crepúsculo das férias escolares para deixar alguns conselhos a esses moços, pobre moços, e às suas belas mães, óbvio, fabulosas afilhadas do velho Balzac.
E como são uns gabolas esse jovens leitores. Eles nos humilham a folhear o Finnegans Wake, o Aleph, o Rosa e tantos outros rizomas e grogotós.
Mal saem dos fraldas, esses bravateadores mirins já enxergam o mundo através dos oculozinhos da prepotência. Por isso é que o velho Brás Cubas maldizia a possibilidade de deixar o seu legado em cima desse chão.
Duvide sempre do caráter de um adulto que diz ter lido um clássico nos seus verdíssimos anos. Podemos estar diante de um carrasco, de um mentiroso dos mais épicos... ou de um maníaco refinado propriamente dito. A indumentária da retidão jamais se ajustará ao seu esqueleto, sempre impróprio ao corte & costura dos homens bons e aparentemente comuns.
“Dito isto, acreditamos ter dito tudo”, como tingiam em seus papiros os respeitáveis senhores editorialistas de casa impressora secular da província de São Paulo. Cumpre-nos, todavia, completar o tanque no nosso breviário moral com algumas dicas até otimistas sobre o pendor literário precoce, resguardados, claro, todos os possíveis efeitos colaterais:
Escola de machos – A simples iniciação via Hemingway não assegura uma cota de testosterona até a madureza, mas faz tão bem para o crescimento quanto Calcigenol ou óleo de fígado de bacalhau. Vocês, pais e mestres, se orgulharão quando o pirralho sair por ai fisgando trutas, caçando pacas, tatus... mirando em rolas, codornas e juritis.
A importância de ler Wilde- A simples iniciação pelo inventor de Dorian Gray também não garante que o seu filho dê em um homem sensível, um metrossexual, para usar a nomenclatura da moda. Mas é um grande começo. “O Fantasma de Canterville”, para meninos e meninas, é o indicado à guisa de debut.
Lição de anatomia – Moby Dick? Vai fazer muito bem. Seu filho crescerá generoso com as mulheres mais cheinhas, as botterinhas, e não cairá nessa fábula das passarelas ossudas e semi-áridas –coisa muito mais para a baleia-cachorra do “Vidas Secas” do velho Graça.
Piedade de nós – “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, jamais. Muito menos as choramingas populistas de Charles Dickens. Seus filhos crescerão com peninha da humanidade, capazes de fundar uma ONG a cada bairro, achando que a caridade seja o remate de todos os males.
Campos & espaços – Mal sinal quando o pimpolho começa a trocar o legos pela poesia concreta, briquedinhos que se combinam. Não há mamadeira bilaquiana que dê jeito.
Vanguardeiros e malditos – São uns bossais estraga-homens. Mantenha-os fora do alcance das crianças. Eles estão para a literatura assim como os pipoqueiros que passam drogas _esses fabulosos sedutores!_ estão para as portas dos colégios.
Catecismo e primeira comunhão - Se Deus não existe, tudo é permitido. Quer segurar o capetinha nas rédeas morais possíveis, aí incluídas as algemas forjadas no aço da culpa? Karamazov nele, como quem dá remédio forçado.
O medo diante da loba- Quer estragar sua filha e a vida dos futuros genros? Libere Virginia Woolf ou Clarice Lispector logo na pré-adolescência. Aí teremos moças misteriosas, labirínticas, metalingüísticas, uns diabos arredias e estranhas diante do amor. Capazes de tudo. TPMs elípticas, menstruações de incomunicabilidades sem fim, coitados desses pobres e suas caras de maridos.
Escrito por xico sá às 17h20
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NÃO MENTIRÁS
A fêmea mente menos e melhor. O macho gasta mentira a torto e a direito, principalmente quando não precisa. Mente muito. E mal. No varejo e no atacado, o homem é um Ceasa de mentiras. Mente por medo do pau-de-macarrão mesmo quando está com uma dama de fino trato que tem mais horas de divã do que urubu de vôo.
É o nosso defeito-mor de fabricação –alô Procom: recall de homem já!
Mulher não mente, ilude, como um David Cooperfield.
Mulher tem a manha da narrativa e da verossimilhança, mesmo quando baixa um Dorian Gray e ela tenta driblar o tempo e o calendário. Falar nisso, uma velha advertência: nunca confiem em uma mulher que não mente, nem que seja questão de dias e meses, sobre a idade. Uma fêmea que passou dos 30 e não mente sobre a idade é capaz de coisas muito piores, é capaz de tudo, velho Balzac.
Minto, logo posso ser amado. Vejo um certo prazer sádico nos detectores femininos. Elas adoram nos flagrar no meio do ciclone de contradições e incoerências. Nada mais insuportável do que um homem cem por cento sincero. O homem cem por cento sincero é sempre o pior canalha. O homem dito sincero e virtuoso, do tipo que tem ONG para ajudar os sem-alguma-coisa, do tipo que faz trabalho voluntário ou ecológico, muitas vezes é o pior dos canalhas, pois age sob o manto sagrado da bondade. Nada pior do que os que se acham melhores do que os outros. Pura vaidade, diria meu filósofo Matias Aires.
No homem cem por cento sincero até sua virtude prevarica, salivaria o maníaco da Tijuca.
O amor não sobrevive em um ambiente sem mentiras. A sinceridade extremada, esse fundamentalismo dos pobres de espírito, torna a vida insuportável, autoritária, sem fantasias. As pequenas mentiras dão graça ao lar-doce-lar. Se eu tivesse um caminhão, escreveria no pára-choque: uma mentira a mais é um desgosto a menos.
Como são arrogantes os que dizem dizer somente a verdade, essa impostura cristã de terceira categoria. Quem tiver suas verdades muito desagradáveis que me poupe delas. Que mintam e me agradem, que mintam e me bajulem, que mintam e divirtam a humanidade, que digam até que sou lindo, hahahaha, embora essa seja a única mentira que eu não acredito.
Pausa para ouvir "Mantra das Possibilidades", clássico de Wander Wildner:
"Minha vontade e ser bonito mas, eu não consigo/Eu sempre volto atráaaas!/ Eu sempre volto atrás!/Sonho em ter cabelo comprido, mas eu não consigo/ Eu sempre corto maaaais! Eu sempre corto mais! /Meu desejo e estar contigo, mas eu não consigo. /Eu sempre fico em paaaaz! Eu sempre fico em paz! /AAAH!Eu sempre fico em paz!"
Agora falando sério, de novo, responda rápido, cria da minha costela: você prefere ouvir um “você é a mulher mais gostosa desse mundo” (mesmo ciente do exagero retórico do camarada), ou um sincero “não é por nada não, mô, mas sua bunda está meio caída”?
De absolutas verdades... bastam as ditas pela velha da foice e pela lei da gravidade.
Escrito por xico sá às 16h19
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REUNIÃO DO F.A., FAMOSOS ANÔNIMOS *
Reunião do F.A., Famosos Anônimos, entidade que congrega viciados ou doentes, como eles mesmo preferem, pela fama, pela exibição pública, obsessão pela celebridade em geral. Famosos, quase famosos e ex-famosos devolvidos aos labirintos do anonimato.Gente de novela que não figura nem mais no “vale a pena ver de novo”, uma penca de Big Brothers, bundas de todas as Casas dos Artistas, modelos-atrizes, gazelas que sobraram na passarela fashion por algumas polegadas a mais, pós-Chacretes, quase-ídolos da Jovem Guarda, intérpretes de uma música só, jogadores de futebol de apenas uma partida genial, playboys decadentes, socialites esquecidas, emergentes que não vingaram, apresentadores de TV que dormiram no ponto, vedetes desiludidas, humoristas ressentidos, novelistas picaretas & outras assombrações dos tempos modernos.
Famosos, quase famosos e ex-famosos fazem um círculo no meio da sala. Começam os depoimentos e orações:
“Só o poder superior, como diz o nosso regulamento, pode nos devolver a sanidade. Irmãos, a Ele me apego noite e dia. Minha obsessão me levou ao fundo do poço, às drogas, ao circo dos horrores finais. Depois da ilusão de um reality-show, achava que a vida estava ganha. Reconhecimento, convites para boates, festas, roupas de graça em loja de shopping... Tudo aquilo encobria o meu passado humilde. O primeiro sinal da doença foi largar a minha mulher, trocada ainda durante o reality por uma vadia, embora em tivesse jurado por tudo nesse mundo que era um jogo, não passava de um jogo, o jogo da minha vida. Balela, irmãos. Capa de revista, ilha de Caras, programa de auditório... Tudo era uma maravilha nas primeiras semanas... (Juan soluça, aos prantos, e não consegue concluir seu depoimento).
“Quanta vergonha fiz ao meu pai, à minha mãe... Quanta vergonha... Me expus como uma verdadeira, com licença da palavra, irmãos, prostituta. Lembram aquela cena debaixo do edredom, na casa? Eu masturbando ele? Uma indecência que encobriu a minha família de luto. Meus irmãos não saíam mais à rua, lá no bairro. Quanta vergonha. E não ficou só nisso, depois mudei de namorado, cada armação, até três vezes por semana. Fiz tatuagem com nome de um, apaguei, tatuei o rosto do outro, fiquei toda perfurada com essa presepada... Meu assessor dizia: ´você tem que se manter em evidência´ e eu ia lá, doente, obedecia... Um tempo depois, passada a febrezinha na mídia, tava lá meu cartaz estampado em boates da Boca do Lixo, as piores possíveis, `Keylla, a da TV, em sensacional noite de sexo explícito, ao vivo, só pra você´. Ai como foi difícil largar essa vida... Só por hoje, mais 24 horas, obrigado senhor, obrigado irmãos, K.”
“Vi que a coisa tinha saído do meu controle, eu parecia possuído, quando cheguei a simular um acidente de carro para voltar a aparecer... Eu mesmo me cortei todo e bati o carro contra o poste para impressionar... Depois, ainda com a alma desassossegada, simulei meu próprio seqüestro... Uma desmoralização... Ele estava fora de si, o artista, não o homem, que agora encontra salvação entre vocês... Obrigado, Y.”
Todos, abraçados para valer, grande corrente solidária, a uma só voz: “Só por hoje, mais 24 horas. Acredite, funciona!”
*do livro "Divina Comédia da Fama"(ed.Objetiva), vasta crônica de costumes que parte do conto O Homem Célebre, de Machado de Assis, e vai ate a vagabundagem dos BigBrothers e outras celebridades-miojo.
Escrito por xico sá às 14h10
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