A BOLA E A MULHER OU VICE-VERSA *
Amigo torcedor, amigo secador, quando o Pereira me disse, ainda no século passado, que ninguém fazia mais sexo na terra da Rainha, eu achei que era apenas um dos seus tantos chistes geniais. Mas que nada, qual o quê, era a mais certeira das verdades.
Ciente de uma pesquisa divulgada esta semana pela BBC, o mesmo Pereira, recrutador e olheiro de uma luxuosa casa de tolerância de São Paulo, volta à forra: “Sexo é coisa de estivador, a Europa não perde mais tempo com esse ato selvagem”.
É, amigo, seis em cada dez europeus preferem um jogo de futebol a uma conjunção carnal. Entre o Chelsea e uma noite com Kate Moss, o time, óbvio. Mesmo considerando que as européias, na média, não têm o latifúndio dorsal das nossas Paraguaçus, não deixa de ser supreendente o resultado da enquete.
Pereira acredita que os brasileiros já seguem a tendência, apesar da cerimônia em revelar, numa boa, numa nice, a tal troca. Ele mesmo largou a sua morena da praia, na noite de quarta, para ver o embate dos aristocráticos tricolores no Maraca.
A gazela ainda tentou, depois do gol do galalau Washington, uns cafunés, uns afagos, um vem-cá-meu-nego, um xenhenhém, e nada. Apenas viu escorrer no rosto do Pereira as duas lágrimas geladas da música do Wando.
Quando o São Paulo vence, Pereira até que cresce no jogo, vai para cima, ganha o motor-rádio da alcova, vira uma espécie de Adriano nas grandes noites. A ciência explica o fenômeno: segundo pesquisa gringa, quando o time do macho triunfa, ele ganha 27,6 % a mais de testosterona nas veias.
Imagine, amigo, como devem estar envernizados, como diz a lírica brega do grupo Academia da Berlinda, os torcedores do Sport Recife. Ainda mais quando o Leão do Norte joga na Ilha de Lost, como os rubronegros chamam agora a sua casa, onde os adversários se perdem, lesadamente, em campo, conforme sopra aqui o jovem escriba Carlyle Paes Barreto.
Os gravatinhas do Flu também estão assanhados, embora vislumbrem, além muito além das mesas do Serafim e da rua Alice, o fantasma azul do Boca.
Pereira prefere não tratar desse assunto. Tapeia o cronista falando mais uma vez da recente pesquisa entre os europeus. “E você viu, rapaz, que 88% responderam ter abraçado e até beijado desconhecidos durante a celebração de gols ou de vitórias?”
É, amigo, o amor é mesmo lindo nas arquibancadas. O mais intransigente dos machões agarra o homem do lado sem medo de sair mal na foto. A maioria dos homens também chora nos grandes triunfos ou quedas de impérios ludopédicos, mesmo aquelas criaturas de olhos secos e corações siberianos.
Os mais chorões são os portugueses, diz o estudo das torcidas. São capazes de aumentar em um palmo as águas do Tejo quando o Benfica fracassa no Estádio da Luz, a sagrada catedral. Choram e soluçam enquanto recitam um fado,um rock do Xutos & Pontapés ou o último soneto de Mário Sá-Carneiro.
Lição do ABC
O Edgar, o mal-assombrado corvo que ganhou animação feita por Caco Galhardo para o “Cartão Verde” (tv Cultura), informa o seu destino no feridão: voou para o Rio Grande do Norte e espera, ali no alto do maior cajueiro do mundo, aquele de Pirangi, a equipe do Corinthians. Mano Menezes e grande elenco que se cuidem. O Frasqueirão, mais conhecido como “La Bombonera potiguar”, vai ferver bonito.
* crônica das sextas-feiras da Folha de S.Paulo.
Escrito por xico sá às 16h25
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VIAGEM AO REDOR DO BARTLEBY BRAZUCA
O “prefiro não fazê-lo” do velho escriturário Bartleby, personagem em voga de Melville, tem outro sentido nestas plagas. É sempre balbuciado depois do prejuízo, depois das favas contadas, depois de todos os brejos, depois que Inês é morta...
Sempre que o chefe pedia algo, Bartleby dizia o mesmo, mantra do sedentarismo metafísico: “Prefiro não fazê-lo”.
Dez minutos depois, de novo, lá estava ele: “Prefiro...”
Uma simples rubrica, um carimbo...
“Prefiro...”
Rodar textos em mimeógrafo, mesmo mimeógrafo a álcool, como da sua preferência, “prefiro não embriagar-me”, diria, barnabé por ofício.
Amor, mesmo platônico, prefiro não cometê-lo.
Suor para um sexo homérico? Prefiro não derramá-lo.
O vício dele era dizer um “não” preventivo até mesmo à mais automática das virtudes.
Até na hora da morte, preferiu não obedecer à velha da foice.
Prefiro puxar a descarga
Por aqui, o Bartleby brazuca tem outro sentido.
Outro dia, com as barrigas vincadas na fórmica do balcão da Mercearia São Pedro, concluímos, num acalourado simpósio extra-acadêmico, que a tal da literatura-do-não cá entre nós não viceja _quando menos esperamos a obra está completa, não há hiato, nem mesmo soluço, apenas reticências, quando muito. Aí só nos resta puxar a cordinha do arrependimento, digo, da descarga existencialista.
Preferência interativa
“Preferia nem ter existido”, diria o Bartleby desta terra alegre e das gentes tristes _ou o contrário, pois aqui, dotô Paulo Prado, a interatividade agora é quem decide. Se você acha que é uma Pátria alegre de povo sorumbático, ligue 0800.xxx.xxx; se você acha que é um solo modorrento do contrário...
Preferimos não bebê-la
Ainda no nosso iluminismo fluorescente de boteco, seguindo o mote de J.R.Terron e sob curadoria luxuosa de Marquinhos, concluímos, crítica da cachaça mineira pura: “Preferimos nem bebê-la”. Isso depois, óbvio, de entornar a danada. Assim como a ressaca, por exemplo, que preferimos não senti-la.
Bartlaby, Bartlabrás
O “prefiro não fazê-lo”, por mais que macunaímico pareçca, aqui tem outro intento, não cai na tentação fácil nem mesmo do futuro do pretérito.
Preferimos agradecer a preferência, assim rasteiro, volte sempre, o mito da cordialidade, Bartlabrás, compensa.
Escrito por xico sá às 00h49
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MI CORAZÓN ES UNA LENDA SELVAGEM
“Não llora, amor”, Marguerita implora, “não llora bebezito de mi pobre bida”.
Donde vem esse portunhol selvagem, maluca?, pergunto de volta.
Ela me fazia dormir las siestas embaladas com incribles lendas guaranys, cunha-taís, histórias da tríplice fronteira, formigas gigantes viciadas no magnésio de fitas cassetes –com guarânias e boleros- e dos carregamentos de VHS,por supuesto, como diz a ficha criminale.
Marguerita estivera com os Jivaros, uns índios da Alta Amazônia, uns índios abusados em suas existências, radicalíssimos os Jivaros, anarquistas ao extremo, que fazem de todos os dias uma viagem sem fim, tribo do Piemonte andino, pelo que me recordo...
“POLÍGAMOS RADICALES”, ela diz, com um entusiasmo rasgado.“MATERIALISTAS!!!, SENSUALISTAS!!!, POSITIVISTAS EXTREMOS!!!”, disse sobre eles o padre Vacas Galindo, ela me conta.
Esse conto do vigário é de 1895, de novo ela, sopra, recita, para a minha cara de leso maconheiro sem memória, mil oitocentos e quanto mesmo? Século 18 ou 19? Como se isso tivesse importância.
Quatro anos después, o abade François-Pierre, ela me ilumina, ah, me gusta da memória de los viajantes, havia dito:
"A família jivaro é um lupanar no qual a devassidão mais desavergonhada é exposta sem restrições nem pudor!".
Paudurescência na hora, me sentia um jivaro àquela altura diante da minha linda antropóloga da selva ou sabe-se lá, me gusta las cientistas picaretas, o que seria essa mulher, será que ela existe? Será que ela existe uma vez que la própria mujer non erriste, conforme Lacan un dia hay surtado no seu gabinete?
Continuarei a inventá-la daqui por delante, porque homem que é homem prefere inventá-las, jamais à sua imagem e semelhança, mas prefere inventá-las a acreditar que a mulher, incluindo a mulher do vigário,seja mesmo uma ficção de nuestras costelas bíblicas.
Marguerita me beija de nuevo na boca. Selvagem essa mina. As formigas gigantes sobem pelas pernas, quando atingirem os bagos gozaremos como viejos lagartos vulcânicos. Será a hora de dizer-te adiós, hermosa chica, como no bolero para o amor mais sincero.
Escrito por xico sá às 01h15
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