CRONICAMENTE INVIÁVEL -II
Algumas, menina, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, furando o asfalto para tirar uma florzinha de nada, a peleja do escriba com o lirismo que não chega nunca, as chagas abertas, croniquinha raquítica, só o fiapo de narrativa, sem sustança, sem tutano, coisinha sem graça, metalingüística, a crônica sobre a crônica falta de assunto.
Algumas vêem ao mundo para confundir a audiência, são crônicas-travestis, arte dos cronistas transgêneros... Pois é, menina, a gente não sabe se é um conto, uma rápida elegia expressionista, um poema em prosa, sabe-se lá, menina, mas mesmo não sendo nada já nasceram crônicas.
Algumas, não têm jeito, eram apenas notícias, que o dedógrafo teimou em decepar as aspas, minha menina, e enfeitar o naturalismo como pôde, coitado.
Algumas, menina, são para ninar as moças nas sestas, como as de Antônio Maria, sabia?
Algumas são de costumes, e até ficam como registros históricos, crônicas de épocas, já ouviu falar em João do Rio?
Algumas já nasceram crônicas de rua, como a grande arte de chutar tampinhas, como os sem-teto e malacos, como os bambas das sinucas das antigas, aí já estamos em João Antônio, manja?
Algumas são do amor louco, menina, como aquelas do velho Charles, o safado catando milho na Remington, menina, com aquela outra menina na praia, gaivotas quase a bicar-lhe os peitos, como no cinema.
Algumas, minha adorável criatura, minha menina sem nome, são como aquelas, lembra, quando me conheceste, lembra, quando pela primeira vez, lembra, lindamente me deste?
Escrito por xico sá às 15h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
TOCA OUTRA VEZ,NICK CAVE
ah, vamos esquecer por uma semana nosso sol de bolso, como João Cabral chamava a aspirina, como Paulo Henriques Britto batizou o milagroso antidepressivo, remate de males do cocoruto, vamos esquecer por uma semana as cartelas, as receitas, as tarjas negras, vamos ver o que acontece, vamos dar um bom dia tristeza, vamos nos tornar lindamente melancólicos ao lusco-fusco, vamos deixar q a espessa neblina encubra o pára-brisa, vamos tentar..., e se der merda, e se a gente não segurar a onda, a gente enche a cara, noite na taverna, a gente volta correndo pra casa e faz dos lençóis uma cabana, uma barraca de praia no escuro, a gente se agarra como se fosse mesmo o fim do mundo, e daí?, posso querer os seus zolhinhos com aquele velho spleen?!
Escrito por xico sá às 16h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|