FLAGRANTE DELITO
“Ah uma carta anônima!”
Era a expressão mais comum do mundo quando alguém via um malfeito amoroso, como uma suposta traição, por exemplo, e não se aguentava em si.
“Ah uma carta anônima!”. E algumas criaturas de sangue quente se metiam mesmo a missivistas. Como se combatessem todas as injustiças do mundo.
Selavam o estrago. As próprias amantes tinham lá essa mania, recurso do método para botar fogo nos lares. Lambiam o envelope, saliva da vingança, com requinte. “Estou te avisando porque sou tua amiga...” Assim postavam as maltraçadas.
No filme Amarelo Manga, de Cláudio Assis, uma mulher traída arranca no dente a orelha de uma amante depois de uma carta anônima assinada singelamente “tua amiga”. Pense numa cena vangoghiana!
Meu amigo Gersolino se divertia nas festas mais, como se diz, liberais, permissivas: “Ah uma carta anônima!”, babava. Imaginem agora.
Sem carecer nem mesmo gastar a saliva nos selos, os tempos modernos nos trouxeram a explosão da carta anônima de volta. “Ah um hotmail anônimo!”. Você vai lá, fácil que nem empurrar bêbado ladeira abaixo, e cria o endereço da maldade.
A carta tinha mais credibilidade e carga dramática –do ato de rasgar aquele envelope misterioso ao “decifra-me ou te devoro” da caligrafia-, mas o estrago de um email bem fundamentado pode ser equivalente. Nitroglicerina pura.
Oh, mr. Postman, a denúncia amorosa, verdadeira (ou falsa), nunca esteve tão à mão, tão em moda. Agora com um requinte de crueldade dos tempos digitais: a fotinha do flagrante delito como anexo da maldade!
Escrito por xico sá às 10h26
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A SOLIDÃO NÃO VENDE CELULARES
Aproveito o barulho da efeméride, o dia dos pombinhos, para tratar das vantagens da solidão _essa pantera inseparável, como dizia Augusto dos Anjos, nosso primeiro punk metafísico.
Que massacre, celulares, fofurinhas, shopping, saco!
O massacre é tanto que alguns solitários se trancam dentro de suas casas neste dia bizarro. A vergonha de ser sozinho(a) depois de tanto samba-exaltação e a porra da felicidade publicitária nos nuestros juízos e cabeções.
Imagina sair por ai e almoçar solamente só, melar os beiços com a solidão de um galeto, e voltar para casa chupando o frio chicabon dos desamparo? Muita gente acha um vexame! Não sabe que é, na maioria das vezes, uma puta vatagem, mas não com esse cardápio, claro, galetinho-gloss ninguém merece.
Como cantarolava o Jorge Ben das antigas, “mas que nada, saia da minha frente que eu quero passar...”
Como diz uma amiga: eu chuto pombinhos nessa data fofinha e querida!
Nada mais elegante do que a solidão tranquila, um trago no balcão do bar, ninguém para encher o saco _a não ser os chatos que se multiplicam por ai, onipresentes, malas, malas, malas. Esses, porém, a gente se livra fácil, não voltam para os nossos lares doces lares.
Não que o amor não seja lindo. Nada disso. “Te amo porra”, bem sabes, como diria mi amigo Campos Viejo.
É obvio que vivemos grandes momentos envenenados por Cupido e suas maçãs carameladas.
O que faço em mais este panfleto avulso é uma defesa da decência solitária, o direito até de esnobar com um "I want to be alone" à Greta Garbo, de não cair no conto do amorzinho a qualquer preço.
De não deixar-se adoecer pela data. A solidão não vende celulares, a solidão está à prova dos truques publicitários, a solidão é revolucionária, a solidão é chique no último, classe!
Aquela coisa de chegar em casa, botar um disco novo, tomar um uísque...
De cantar Antonio Maria da forma mais irônica, como ele também hoje cantaria: “Ninguém me ama/ ninguém me quer/ ninguém me chama/ de Baudelaire...”
Não se deixe intimidar, amiga, pelos coraçõezinhos de vento que hoje tomarão conta dos tetos das churrascarias, cantinas, bistrozinhos très romantic... Lembre-se das falsas promessas, dos chifres, das decepções, dos amores filhos-da-puta, das falhas de caráter, daquele campeonato atrás do outro, da sogra infernal, das ilusões perdidas...
Solitários e solitárias, cantemos com os jovens e amorosos mancebos do Mombojó, esse é o reino da alegria, tudo pode acontecer, não temam, todos às ruas, livremente!
E se não acontecer nem tão breve, foda-se de qualquer jeito a nobre data, bote Rolling Stones bem alto, peça um uísque duplo e mate com força todas as bolas do pano verde. Viver é sinucar-se, sempre!
Escrito por xico sá às 21h34
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