A ASMA DO AMOR
Não há mais dúvidas: quanto mais beira o verossímil, com gritos lancinantes na noite, como assimilamos do cinema, mais fingido é o tal do orgasmo. Nunca é condizente com a nossa performance e suor. Os melhores e mais recompensadores orgasmos guardam o bom preceito da educação dos gemidos.
Por mais megalomaníaco que seja Vossa Senhoria, recomendo que não acredite naquelas algazarras, feiras amorosas, sacolões do sexo, capazes de fazer os vizinhos pularem da cama só de inveja. Aquela gritaria toda, meu caro, só vale para provocar um problema dos mais graves. Deixará o casal que mora do outro lado da parede em pé de guerra, uma vez que a mulher, atenta à lição de gozo comparado, vai exigir mais, muito mais, mais e mais, e mais um pouquinho ainda, do seu colega de prédio ou de rua. E o pior é que os gritos lancinantes só costumam ocorrer quando o gozo não passa de teatro, puro teatro, falsidade ensaiada, estudiado simulacro, como canta a deusa La Lupe.
O gozo desesperado costuma ter origens variadas (falar nisso, por que ninguém cita mais W. Reich, meu ídolo da lira dos 20 anos?!). O gozo desesperado, falava eu, costuma ser resultado de algum curso mais digerido de teatro amador, formação em escola com viés jesuítica, leitura errada dos Actors Stúdio, dietas à base de alcachofra, audiências tardias das onomatopéias do Led Zeppelin ou falta de homem propriamente dita.
As melhores gazelas educam cedo os gemidos. Em vez de gritos que parecem mais apropriados para momentos de sequestro-relâmpago, a boa moça sussurra e balbucia safadezas no cangote do amado. Mais vale um dos 3.000 verbetes catalogados no Dicionário do Palavrão, do mestre pernambucano Mário Souto Maior, do que os decibéis selvagens.
As melhores não se desesperam. Já imaginou Ava Gardner em desespero? Nem com Frank Sinatra, a quem enlouqueceu todos os sentidos. E não me venha dizer que isso seja frigidez, frescura ou algo da linha.
Uma coisa é a gritaria, quase um SOS, incêndio do Joelma ou sinistro urbano do gênero. Outra é a gemedeira gostosa, fungada sentida, fogo nas entranhas, calor na bacurinha, quase um decassílabo a cada descida, lirismo sem fôlego, asma do amor.
Escrito por xico sá às 03h23
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DO AMOR E DAS SUAS VENTOSIDADES
A coisa, coisa não, o ato nobre e mais sagrado, de um homem para uma mulher – e vice-versa – é a conquista do direito à “ventosidade emitida pelo ânus; pum”, como registram os nossos educados dicionaristas. S.M. Substantivo Masculino, peido propriamento dito e dicionarizado. O direito a emitir tais gazes despreocupadamente, numa relax, numa tranqüila, numa boa, como diria o Tim Maia.
Melhor ainda. Emiti-los e arrancar um “afe!” surpresa da amada. Não debaixo dos lençóis, motivo de sobra para qualquer divórcio, circo, Orlando Orfei dos horrores, dependendo das iguarias ingeridas. Caiu aqui um parêntesis: cuidado com a mistura explosiva de fava, bacalhau, batata doce, ovo de galinha capoeira.
Pólvora de bacamarteiro perde, né, Jojô?
Evitem o circo dos lençóis e o resto vale, é pura prova de amor. Com janelas abertas, então, não passa de uma droga recreativa capaz de animar a vida besta dos casais nos seus pombais.
- Peidaste?! – salta ela, em bom português.
- ´Magina!
Como ainda não têm filhos, sobra, quase sempre, para o cachorro, senhor dos direitos autorais de tais flatulências anônimas na aurora dos romances. A sorte é que o cão assimila as impurezas do homem, tão-somente para tornar seu dono inimputável. O tal gás sarin sai à semelhança.
Melhor ainda é quando um reconhece a ventosidade do outro. De longe. Chega em casa, depois de uma festinha, social clube, e a nega diz, até um tanto quanto orgulhosa, com o mesmo português infalível de sempre, assimilado das lições do velho e bom Pasquale:
-Fostes tu, desgraçado!
Emocionante saber que a criatura é capaz de reconhecer teus ventos mais elípticos, teus cheiros e fedores mais recônditos, tuas vergonhas mais perdidas, tuas cláusulas do melhor dos contratos rosseuanianos.
Mas qual seria o prazo ideal para liberar a prática na frente do(a) amado(a)? Se a convivência for intensa acho três meses um prazo razoável... Um semestre em casos de pombinhos que pouco se vêem, um ano quando o romance for de ponte aérea, cidade a cidade... Que acham?
Escrito por xico sá às 13h47
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HUMILHADOS & OFENDIDOS NO W.C.
Vem da Suécia, pátria de todos os clichês do sexo loiro, uma lufada revolucionária capaz de virar de cabeça para baixo as nossas tristes existências. As gazelas daquele país passaram a obrigar os cavalheiros a mijar sentados. Postura que nos impõe um distanciamento brechtiano em relação ao nosso confidente-mor: agora escondido, mergulhado no vaso, encoberto pela barriga, ele sente que perdeu o arrastado e cansativo debate sobre a pontaria. Ele abaixa a cabeça, num quase mergulho suicida, existencialista perdido diante do trunfo da nova moral burguesa do Politicamente Correto.
Que fazer? Saltamos, abestalhados, a buscar uma solução para essa onda que deve varrer o mundo. Claro que se trata de mais uma novidade do chamado projeto internacional para tentar forjar o dito prospecto do macho sensível. Ora, outro dia admitíamos, no máximo, uma camadazinha de Minâncora sobre uma espinha trabalhosa. Hoje vejo íntegros camaradas se lambuzarem de Lancôme sem a menor cerimônia, com a maior cara lavada.
Claro que fizemos por onde ser derrotados nessa peleja. Foram décadas e mais décadas de reclamações. Erramos. Não levamos a sério os quesitos pontaria, tampa levantada etc. Zombamos da boa vontade daquelas que lustram o nosso chão de estrelas. Deu no que deu. Agora, compadres, só nos restarão o Firestone na saída dos bares, a cerca do vizinho, um baobá qualquer a caminho de casa ou o asfalto propriamente dito. (Como este é um espaço proustiano, recordo-me de quando mijávamos na areia quente do sertão, tentando escrever os nossos nomes no chão com vigorosos jatos-mirins.)
Não adianta estrebuchar, pouco importa o direito ao juris esperneandi. O certo é que querem nos civilizar a qualquer custo... É a conspiração internacional da qual tratei linhas atrás. Querem nos androgenar, como diria o lírico sambista Luis Américo. “Esse camarada se androgenou/ a moça deu bola a ele/ e ele nem ligou”.
Só nos resta aceitar a derrota histórica. Mijar sentado, tudo bem, mas pelo amor de Deus, sem aquele barulhinho erótico de que só uma dama é capaz. Devagar com a nova moda, rapaziada!
Escrito por xico sá às 10h31
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