AS NAVALHAS DE NICK CAVE
A ressaca era tão monstruosa que os mortos riam de mim do outro lado do muro do cemitério. Seguramente, depois daquelas noites brancas, eu estava mais morto do que eles todos. Arrastava a carcaça, suava frio e doía justamente naquele lugar do coração que nunca vai ser preenchido, como no poema do velho Charles, there is a place in the heart that/ will never be filled.
Esse ai estragou a vida mas ela teima em segui-lo, dizia a voz dum morto franzino do outro lado do muro da Cardeal Arcoverde. A vida gosta das suas piadas e ri dos seus passos. E eles se divertem juntos lambendo o rés do chão e os pés de lindas garotas.
Esse ai dormiu ao lado de uma bela bunda, mas as pernas não encaixaram à perfeição, como dantes. Ele notou que ela já não tinha mais aquele sorriso capaz de incendiar de manhã o calendário. Estava chateada. Aquela viagem ao fim da noite a tirou do prumo: vinho barato, do pó ao pó, Jack Daniels , palavras desagradáveis que saem do inferno da gengiva sem dente, Nick Cave espalhando convicções e navalhas pela casa.
O monstro da ressaca na luta contra o monstro da memória... e a gosmenta ninja da culpa de cócora num canto da sala sem cortina.
Escrito por xico sá às 13h20
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