PELA VOLTA DA CARTA DE AMOR -PARTE II DA CAMPANHA
A carta escrita à mão, com local de origem, data, saudações, motivos, despeço-me por aqui, papel fininho e pautado, pelos Correios, mr. Postman, como na música. Como canta o rei Roberto, escreva uma carta de amor, e diga alguma coisa por favor.
Pela volta da carta de amor, com selo carinhosamente lambido.
Chega de emails lacônicos e apressados. Debruce a munheca sobre o papiro e faça da tinta da caneta o seu próprio sangue.
Não temas a breguice, o romantismo, como já disse a pessoa do sr. Álvaro de Campos, todas cartas de amor são ridículas, e não seriam de amor se ridículas não fossem.
A carta, mesmo com todas as modernidades e invencionices, ainda é o melhor veículo para declarar-se, comunicar afinidades e iniciar um feitio de orações.
O que você está esperando, vá ali na esquina, compre um belo papel e envelopes, e se devote.
Se tiver alguma rusga, peça perdão por escrito, pois perdão por escrito vale como documento de cartório.
Se o namoro ainda não tiver começado, largue a mão dessas cantadas baratas e internéticas e atire a garrafa aos mares. Uma boa carta de amor é irresistível. Mas não vale copiar aqueles modelos que vêm nos livros. Sele o envelope com a língua, como nas antigas, lamba os selos, esse pré-beijo dos lábios do(a) futuro(a) amado(a).
O sr. Álvaro zumbe de novo aqui ao pé do ouvido: "As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”.
Às moças é consentido, além dos floreios e da caligrafia mais arrumadinha, a reprodução de um beijo, com batom bem vermelho, ao final, perto da assinatura.
Uma carta, até mesmo de amizade, deixa a gente comovido, como a que recebi outro dia de Fábio Victor, escriba e amigo do Recife que habita a velha e fria Londres.
Que os amigos,e não apenas os amantes, se correspondam, fazendo dos envelopes no fundo do baú as suas histórias de vida.
Pela volta da carta, que já é por si só uma maneira devota, um tempo que se tira, sem pressa, para dedicar-se a quem se gosta. Pela volta da carta, pois o que se diz numa carta é de outra natureza, é o bem-querer em tom solene.
O que você está esperando, meu amigo, minha amiga, largue esse cronista de lado e debruce-se sobre a escrivaninha. Uma mesa de bar ou de um café também são bons lugares para assentar as suas mal-traçadas linhas.
Um namoro, romance ou cacho somente à base de emails não se sustenta, mais parece uma troca de ofícios, “venho por meio desta”, uma troca de protocolos, mensagens comerciais. Um amor sem uma troca de cartas, nem que seja bem rápida, ainda não é amor... O que você está esperando? Vamos lá, amiga, papel, tinta e derramamento, faz favor!
Não há homem que não se comova com uma carta. Claro, você está certa, sempre haverá aquele medroso, aquele que se espanta com as palavras devotas... É, os fracos se encontram em todas as partes. Estes temem a própria vida, são frios, reconhecerás de longe. Estes não valem uma linha, não valem sequer um email ou pulso telefônico. Não tires o mundo por eles, uma carta nas mãos de um homem tem o poder de uma bela bomba amorosa.
Com o selo bem lambido, língua arrastada lentamente, com ritmo, isso, isso, lindo!!!
Escrito por xico sá às 11h57
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COM HEMINGWAY NO VELHO CHICO
Uma peça, o cara. A barba já bem delineada e o domínio da arte de pescar surubins –varas de dois metros com meia flexibilidade, anzóis de 4 a 10/0 – não me deixavam dúvida. Tratava-se do velho Ernest Hemingway reencarnado na beira do São Francisco.
Fala curta, direta, mas sempre com um dado escondido, um segredo cofiado na barba e nas entrelinhas.
- É, se morreu nestas circunstâncias, algo ele devia – apontou com os beiços para uma desgraçada criatura de uma agrovila, todo esburacado de bala, calibre de traficante.
Área de plantação de maconha. Mas ele não era de falar nada além disso. Deixa quieto.
Falar mesmo, apenas sobre pesca. Chegara ali, numa ilhota perto de Petrolina e Juazeiro, havia um quarto de século. No mínimo. Quando aportou, cultivava farto bigode preto e cabelos penteados para trás, me contaram. A última parada havia sido o Janga, litoral norte de Pernambuco, arredores de Olinda. Alguns tubarões e mais de 84 horas de espera por um peixe grande, além das mortes banais de jovens, o enxotaram para a beira do velho Chico.
Hoje reclama da falta de dourados, piaus, matrinchãs, mandis, piras, timburés, tucanarés, corvinas...
- Com essa isca ai, cabrón, não vais a lugar nenhum - advertiu, cigarro de palha na boca. – Pega um pedaço de mandi branco ou uma lasca de coração de boi...
Eu tentava em vão capturar uma piranha.
- Com essa tua vara, não chegarás a elas - gracejou, enfiando a mão direita, cujas unhas guardavam terra nas pontas e tinta de fumo por cima, barba adentro.
Fiquei sem graça, amarelo.
O que o velho Ernest não sabia era que pouco importava o resultado da pesca naquela manhã.
- Quer um drinque? – ele perguntou, depois de um gole na boca da garrafa de Caribé.
- Melhor aceitar –soprou Zeca, amigo que havia conhecido durante a pesquisa de “Deserto Feliz”, película de Paulo Caldas, breve neste cinema.
- Muito boa, só um rum cubano chega perto – eu disse.
A provocação com a sua vida passada, senti, não caiu bem. Um cardume de pirapetingas fez a curva no velho rio. O barco mal-assombrou-se em águas plácidas. Por um segundo vi o velho Santiago curvado como vara de anzol tentando trazer aos seus pés um surubim gigante. Um relâmpago e a cara do homem era uma carranca iluminada.
Escrito por xico sá às 14h26
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O SEU ORGULHO NÃO VALE NADA E/OU SAM SHEPARD REMIX
Por ti chorei lágrimas de rodoviária, lágrimas com poeira de estrada perdida, lágrimas e poeira que viraram maquiagem de lama, tijolos d´alma, emendei lotações e fronteiras, gastei botas, máscaras, joelhos... e contei passos de crimes & castigos, por ti esperei em hotéis baratos do centro, porta aberta, mão no pau e faca no peito, por ti bebi como uma mosca caricata de boteco, cheirei, fumei, fiz lirismos chinfrins em guardanapos, sempre começando assim “por ti” etc e algum verbo que representasse um esforço da porra ou o mais puro exibicionismo de uma dor tão gasta que nem já combinava mais com os meus drinques caubói nem muito menos com as minhas elegantes vestes rotas da mendicância, ah, o seu orgulho não vale uma canção triste de Roberto Carlos.
Escrito por xico sá às 02h47
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