É FREVO, MEU BEM!
Não me leve a mal, vou beijar-te agora, já é carnaval.
Todo cuidado é pouco, donzelo, pirilampo, com a marchinha, todo cuidado é pouco com festa da carne, os amigos sabem...
O mais louco, porém, “ai porém”, como diz a conjunção adversativa predileta dos sambistas, são os barracos que antecedem a folia, esses, Nossa Senhora me defenda de uma má hora dessas, esses são broncas pesadas.
Quem está mal-intencionado inventa logo uma briga de véspera, na semana pré-carnavalesca, lavra um B.O. para ir no baile do “I love Cafusú”, feliz da vida com Duda, Priscila,Lala K. e Jojô, confusão dos seiscentos no Recife/Olinda, Baile dos Casados, já começou, alguns lavam a roupa suja de Matusalém, aparecem com brigas dos tempos do Código de Hamurabi, olho por olho, dente por dente do além, não convém, vão longe na arqueologia do chifre, virgem!, o importante é cair fora, cantar aquela do Tim Maia, “me dê motivo... pra ir embora!”
A separação da semana pré-carnavalesca é um clássico,ai passa o tríduo-momesco -ah os jornais que esqueceram essas belas expressões!-, e lá vem ele todo sonso, coma cabeça enfeitada, e lá vem ela toda lesa, de farol baixo... Uma mulher mais ou menos culpada voltando para casa é a coisa mais linda do mundo, a gente só tende a ganhar, volta amando a gente para o ano todo e nossas últimas quatro gerações, que beleza!
Pior é quem deixa o barraco, o pantim, a briga fictícia para a última hora...
Para este sábado de Zé Pereira, ave palavra, ai é bronca mesmo! É frevo, meu bem, meu bem é frevo, esse ritmo que é o pai do jazz e de tudo que ferve na música do mundo o tempo inteiro!!!
Como diz a letra de Capiba, “é de amargar”, é, é chifre, meu bem, mas logo passa, toma uma cachaça, bota uma daquelas fitas brilux na cabeça e se junta à rafaméia, se junta à poeira, aos doidos de passagem livre, aos refugos traídos pelo amor ou pelo voto de classe, dane-se!
O bloco saindo e os dois na pendenga. Os amigos tomando uma cerveja na concentração e os dois parecendo um duelo de repente entre Mocinha de Passira x Oliveira de Panelas, para ficar nos dois maiores cantadores do gênero, até adonde se tem notícia até hoje.
Tem também a opção do tédio, isso no caso de quem não estava disposto à peleja, o casal que contraria o desejo de ambos e vai para uma praia deserta. Ai fica ali indo para uma praia que já conhece até os golfinhos, comendo aquele peixe que nesse período não está tão fresco –ah, pescador também é filho de Deus e principalmente de Iemanjá e Dionísio-, bebendo aquela cerveja quente, se brincar aparece até uma dor de dente... de cabeça tem na certa, justo naquela hora, aquela clássica no tesão da alvorada.
Para um casal novo, amigos, é fácil. Ou então para aquele casal velho extraordinário, decente, que não se larga num amor que só causa inveja a todos nós, mas sabemos, isso é mercadoria raríssima e sem nota, sempre em falta na bodega da existência, seja em Baturité, Londrina, Juazeiro, Cruz das Almas ou no carnaval de máscaras de Veneza.
Amigos, agora uma auto-ajuda, coisa assim Alain de Bouton, aos pombinhos: se na vida supostamente normal já é um desafio da gota, imagina manter o amor ou o costume –ah, como é rica e lindamente pornográfica a intimidade da rotina!- nesta festa reconhecidamente da carne. Só nos resta recorrer ao bravo Santo Agostinho e repeti-lo, num momento apropriado: “Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje!”. E depois tudo se ajeita.
Escrito por xico sá às 11h30
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