NÃO ME LEVE A MAL VOU BEIJAR-TE AGORA JÁ É CARNAVAL
Eta, eita, lá vai o casal no maior barraco em plena ladeira de Olinda, na pisada do bloco “Enquanto isso na Sala de Justiça”. Danou-se.
Evoé, Baco!
Quantas vezes já vimos esse filme?
Comédia de erros mais troncha.
E aqueles pombinhos acolá, repare bem, se separaram antes do cocorocó dionisíaco do Galo da Madrugada. Cada um para o seu lado até o bacalhau da quarta. Até as cinzas na testa. Porque separação de carnaval não conta, é resenha até umas horas, fábula com urso do pé de lã como protagonista. Barraco para turista ver que não somos cool, ah, de jeito nenhum, que não somos frios, que não somos ingleses, que o meu sangue ferve por vocês, minhas boyzinhas mestiças fantasiadas de colegiais ou de freiras.
Quantas vezes já vimos essa comédia?
Existem os que se separam na semana pré ou na véspera do glorioso sábado de Zé Pereira. Haja nego a inventar confusão sem sentido a semana toda. Cantando o tempo inteiro “Me dê motivo!”
Haja lavagem de roupa suja, pendengas antigas, roupa que já virou molambo, pano de chão, qualquer coisa serve para uma boa refrega.
Passar na cara do outro uns chifres que de tão velhos já viraram artesanato, pente, bugiganga, enfeite do Bar dos Cornos...
Me dê motivo!
Tudo para dar uns beijos na boca de uns belos desconhecidos e desconhecidas.
Traição de carnaval não conta, meu irmão, perdão pela ignorância, mas sai na urina.
Na quarta lá estão vocês, dividindo a mesma aspirina, a mesma macaxeira com charque, a rotina-tapioca da harmonia dos lares.
“Então tá combinado, cada um vai para o seu lado.” Bom se pudesse ser assim, mas o sangue quente não deixa, somos passionais, corações sempre na fervente cabidela.
Vai ser sempre um drama, diz que me ama, porra.
Então tá combinado, coincidência de pensamento, cada um na sua safadeza. Então tá combinado, se quer aprontar, não me atarracha um chifre público, vai lá no privê do Baile dos Casados, lá em Afogados.
Então tá combinado, tu brincaste todo à vontade no bloco das Virgens, vestido de heterossexual enrustido, agora me deixe, peste!
Pense num casal mal-intencionado!
Esse sim, um raro casal relax, civilizadíssimo, fica beijando de três, quatro, valha-me Deus.
Eu já vi esse filme, visse?
Se é um casal de primeira viagem, primeiro carnaval de mãos dadas, menos grave, embora os perigos rondem a carne do mesmo jeito.
E quando um dos dois vira o maior moralista desse mundo, conservado em barris de bons costumes, condenando até o beijo no rosto mais inocente?
Pense nuns dias em que se vive perigosamente. E a graça é essa.
Principalmente se você estiver no baile do I love Cafusú, o bloco mais brega e almodovariano do planeta! [Este ano vai ser no dia 9, clube Preto Velho, o lugar mais bonito do Recife-Olinda].
Escrito por xico sá às 01h16
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