SOCUERRA-ME, JUSTICEIRA MISS CORAÇÕES SOLITÁRIOS
Depois dos mais histéricos pedidos, depois de ameaças de suicídios à base de overdoses de tarja preta com Domecq, barbitúricos com Drury´s, depois de roletas russas de grossíssimo calibre e gritos lancinantes à Kim Novak na Golden Gate...
Depois da agonia toda da passagem de ano, depois de começar de novo a adiar os planos, a ginástica, o regime, depois de ver as novíssimas folhinhas do calendário sobre a relva das coisas inviáveis...
Depois de pulsos cortados e vinis furados de Elvis Costello, Robertão das antigas, lupicínicos arranhões da agulha sobre os sulcos das dores mais profundas, Odair José (“mande pelo menos um telegrama/ dizendo que me ama/e que um dia vai voltar...). Depois de tomar todas com Bartô Galeno (“no toca-fita do meu carro/ uma canção me fez lembrar você”), depois daquela de Leonardo Cohen, sussurrada com o meu inglês de matuto _“I can't forget but I don't remember what”.
Ufa!
Depois de todas as dores de corno que não curam com cachaça nem aspirina, Miss Corações Solitários, cigana-mor das cólicas andaluzas, bálsamo dos almodovares corazones, pegou o seu helicóptero vermelho-sangue, ao qual se refere apenas como “o colibri rubro de Deus”, e aqui se encontra, na redação deste diário, no último subsolo das dores humanas, confortando o tipógrafo e todos os que padecem nesta entrada de ano.
Vamos, então, à nossa primeira cartinha, sem mais delongas, que a cabocla que baixa por aqui tem pressa:
“Redentora e fecunda Miss C., não é a primeira nem a última vez que lhe escrevo esses lacrimosos garranchos, provas da minha vida de m... ah, de merda mesmo, pronto, falei o que todo mundo aqui já sabe desde que provei o mingau da inconveniência de haver nascido... Ah, Miss C., não busco mais a cura, preciso apenas de uma resposta, à guisa de uma aposta aqui entre as balzacas do bairro dos Aflitos. Gloriosa Miss C., qual a coisa mais difícil dessa vida: 1) Parar de fumar?; 2)parar de beber?; 3)parar de amar? Ansiosa pela sua luz, Madá do MADA.
RESPOSTA:
Querida consulente, envelhecida em barris de Jerez como sou, eu diria, no auge da minha antologia de ressacas monstras, que parar de beber é a luta mais vã; parar de fumar só quando parar de fazer sexo _o que fazer?, a não ser baforar o king size da desilusão depois da transa meia-boca aqui de casa?; parar de amar? Ah, mulherzinha, me erra, me esquece, isso é lá coisa que se pense na segunda semana do ano!? Só o caminho do erro e do excesso, disse o poeta, conduzem ao palácio da sabedoria. Te joga, criatura aflita. Cariño, Miss C. Solitários.
Mais uma cartinha. “Dadivosa Miss C., morro de medo de assombração, alma, coisa de outro mundo. E não é que agora tem um espírito de um cabra safado que, além de aparecer do nada, vem com nove-horas, saliências e enxerimentos a me bolinar no meu pacato caritó?! Vê se eu posso com uma marmota dessas! Socorra-me, justiceira. Com apreço, Calada da Noite, Conjunto Ceará.
RESPOSTA:
Estimada consulente, para a sua sorte grande, eu vejo aqui nas minhas cartas que isso é presepada de um tarado vivo, porque tarado do além é bicho lerdo e preguiçoso para estas malasartes. Vejo mais: isso é munganga de um tarado de Caridade, aquele bravo município ali na estrada de Canindé(CE). Confesso ainda: eu morro é de inveja de ti, pois aqui não tem aparecido nem para o sal, num baixa nem um daqueles ET´s de Quixadá, terra da minha comadre Raquel de Queiroz. Ora pro nobis. Cariño, da sempre tua Miss C.Solitários.
Escrito por xico sá às 23h42
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CRÔNICA: MODO DE USAR
Algumas saem fáceis, menina, como aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole, fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis, na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinícius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja aqui na esquina da Augusta, como quem costura para fora, mesmo sabendo quanto custa a mais-valia da musa da encomenda, mesmo sabendo que na vida não tem almoço de graça, muito menos sobremesa, mesmo sabendo que a vida não é café pequeno, mesmo sabendo que no fundo da xícara, na borra mais árabe, o desenho do futuro, Etelvina, é obscuro, o jogo do bicho, Etelvina, ainda não permite o teu luxo.
Algumas, menina, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, furando o asfalto para tirar uma florzinha de nada, a peleja do escriba com o lirismo que não chega nunca, as chagas abertas, croniquinha raquítica, só o fiapo de narrativa, sem sustança, sem tutano, coisinha sem graça, metalingüística, a crônica sobre a crônica falta de assunto.
Algumas vêem ao mundo para confundir a audiência, são crônicas-travestis, arte dos cronistas transgêneros... Pois é, menina, a gente não sabe se é um conto, uma rápida elegia expressionista, um poema em prosa, sabe-se lá, menina, mas mesmo não sendo nada já nasceram crônicas.
Algumas, não têm jeito, eram apenas notícias, que o dedógrafo teimou em decepar as aspas, minha menina, e enfeitar o naturalismo como pôde, coitado.
Algumas, menina, são para ninar as moças nas sestas, como as de Antônio Maria, sabia?
Algumas são de costumes, e até ficam como registros históricos, crônicas de épocas, já ouviu falar em João do Rio?
Algumas já nasceram crônicas de rua, como a grande arte de chutar tampinhas, como os sem-teto e malacos, como os bambas das sinucas das antigas, aí já estamos em João Antônio, manja?
Algumas são do amor louco, menina, como aquelas do velho Charles Bukovski, o safado catando milho na Remington, menina, com aquela outra menina na praia, gaivotas quase a bicar-lhe os peitos, como no cinema.
Algumas, minha adorável criatura, minha menina sem nome, são como aquelas, lembra, quando me conheceste, lembra, quando pela primeira vez, lembra, lindamente me deste?
Escrito por xico sá às 11h44
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