BREVE CONTO PARA BATAILLE
Foi assim que começamos nossa história. Se breve ou não, pouco interessa, disse ele. E leu um trecho de Bataille para a moça, que acendia um cigarro e perguntava, solene, se podia fumar na sua casa. Achou o isqueiro, ela riu, daqueles isqueiros de sex shop, presente de aniversário de amigo que o identifica com o tema mais óbvio: SEXO.
Não se sabe o motivo, não chovia, melancolia não havia, nada acontecia, o coração nem doía mas eles ouviam Tom Waits, vê se pode, como se fossem seres nublados & obscuros, como naquele tempo em que ele morava sob tempestades do Centro-Oeste,Brasília, entende?
Vê que passagem, ele lia:
“Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu (esse nome que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que levantando o avental, contemplaria a sua bunda pelada.”
Ela voava com a fumaça do cigarro por cima dos edifícios de São Paulo e nem percebia o que ele lia. Ou gostava dele ao ponto de ficar bem tranqüila, zen, ali na dela, ou estava noutra, bem longe, sinto muito minha pobre narrativa, mas não há como saber o que rola além da nuvem óbvia de nicotina de uma mulher que lindamente fuma.
O gato bolinou com os tacos soltos da sala e aquilo o fez recordar o Último Tango, o da manteiga minha nega, lembra?.
Havia no corredor um prato de leite para o gato, ai já é Bataille sendo roubado por este escriba batedor de carteiras, imagens, metáforas.
- Caguei para metáforas – disse ela, indie desaforada da porra, enquanto desenganchava sua mochilinha vermelha das costas.
Ele prosseguiu sua leitura, afinal de contas ela só fumava com uma arrogância de atriz de nouvelle vague:
- Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone. – Quer apostar que eu me sento no prato?
- Duvido que você se atreva – respondi, ofegante.
- Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meu olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me aos seus pés.Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua “carne rosa e negra” banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.
De repente, ela se levantou: o leite escorreu por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço, por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me remexendo no assoalho. Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos.”
Escrito por xico sá às 12h46
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VINTE ANO ESTA NOCHE
Voltamos a nos beijar, como se diz, ardentemente.
Voltamos a nos beijar, do jeito mais punk-brega possível, sabe dentes batendo e língua muy loca e, ora direis, ouvir céus e estrelas.
Cantei uma canción del concierto adonde tudo habia começado para ella, cantei do jeito que me veio naquela manhã ainda incendiada por binte años de álcool en lo caveirón heróico del Mercosul de la existência:
“Yo tento un paraquedas para te salbar/ yo tengo un paraquedas em mi corazón”.
Ela me abraçou forte.
Nossos narizes havia tempo não estavam mais esquimós.
Escrito por xico sá às 11h04
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