DAS MULHERES ARTISTAS E DAS MULHERES "NORMAIS"
Do amor e das tantas malasartes a sabotá-lo. Seja uma atriz do mundo Antunes ou Zé Celso, uma DJ pós-tudo, uma escritora industrial, uma chef que se acha a própria artista da fome, uma tradutora do grego, a moça do cinema-cabeça, a mina do canto lírico ou uma musa residente do botequim predileto...
As mulheres possíveis e os seus ensaios de amor. Aquelas que enfeitiçam, assanham... e nos deixam a chupar, alta madrugada, o frio chicabon da solidão. Melhor amar uma mulher normal, uma honesta enfermeira, como aquela, jamais entregue às artes, e que ainda salva vidas. Ou aquela bióloga que estuda as propriedades antiofídicas da Mata Atlântica. Ah, uma balconista, suburbanos corações, ah uma jambo-girl das margens do Capibaribe!
Do amor e das moças da classe artística. Donde aqui se narram pequenos episódios, crimes exemplares alvejados contra o coração deste e de outros mancebos próximos, todos vítimas do mesmo infortúnio:
A terra, o homem, a luta - Depois de um reencontro antropofágico na cumeeira do Teatro Oficina, ali quase lambendo estrelas bilaquianas, nunca mais nécaras, nada, cadê minha bela afilhada de Artaud?... Ensaios d´”Os Sertões” de quase dez horas, e o cabra na tocaia na esquina fria do Bixiga, o uísque e o seu duplo, a esperá-la... E a alucinação do álcool nos faz virar um coronel Moreira Campos, o “corta-cabeças”, vontade de invadir aquela nova Canudos e seqüestrá-la, como o mais civilizado republicano da praça.
O tio e a escrevinhadora - Enquanto ela entretém o populacho, eu vivo uma mexicanização na pele... Drama, lágrimas, um tiozinho Werther, quarent´anos, envelhecido em barris de carvalho.
A garganta profunda e o homem-gargarejo - Nem a bula milagrosa de Ovídio, no volume “Os Remédios do Amor”, serviu de bálsamo ou analgésico para o infeliz. A estudante de canto lírico o deixou apenas com um zumbido ao longe, mesmo que ele estivesse ali, pertinho, na fila do gargarejo.
O Ulysses-mané e os monólogos de Onan - Depois de uma transa homérica, a tradutora de grego, sereia assassina, deixou o amigo na mão... de Platão.
A Valentina de Crepax e suas botas que machucam - Vestia-se tão bem, mas tão bem, que jamais me deixou despi-la.
A chef, a fome atávica e o amante - Sua fusion food nunca foi para o meu bico. Carrego o peso do amor a quilo.
Escrito por xico sá às 11h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DECÁLOGO DO BOÊMIO
1) É de bom-tom sempre guardar o nome dos garçons, afinal de contas é no ombro deles que vais chorar, ao som de “Nervos de Aço”, a inevitável, acachapante e humaníssima dor de corno.
2)Na saúde e na doença, a culpa será sempre do tira-gosto, ah, aquela calabresa, aquele torresmo, aquela azeitona me fez mal à beça... Jamais a culpa será da cachaça ou do uísque.
3)Boemia é como futebol, é ritmo de jogo, seqüência; se você a larga por uns dias, ela te pega na volta, mesmo que peças,suplicante, a tua nova inscrição.
4)A divisão do tempo da prosa, na mesa de um bar, deve obedecer ao seguinte critério: 50% sobre mulheres,40% sobre futebol e 10% sobre as ressacas monstruosas, a nostalgia precoce das quedas. E que venham as próximas.
5) Procures sentar sempre nas primeiras mesas do botequim, se possível na calçada, pois todos os dias, alguma mulher irada sai de casa, revoltada com o consorte, e diz assim: “Hoje eu vou dar para o primeiro que encontrar”. Se bem colocado, este primeiro serás tu, bravo boêmio.
6) Direito máximo do consumidor boêmio: desde que o freguês não se incomode com água e sabão nos pés, poderá ficar no recinto até a descida do portão de ferro.
7) É livre o “pindura”, data vênia, para fregueses com mais de cinco anos de casa, como reza a lei do usucapião.
8) Meu bar/meu mar... É permitido nadar no seco.
9)Andem sempre com o endereço e os seus nomes completos pendurados na correntinha do pescoço.
10) No país da impunidade, a saideira é como a lei, existe para ser desobedecida. Seu garçom faça o favor!!! Mais uma!!!
Escrito por xico sá às 20h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|